Sorri com o sol,

chora com a lua..

Sua alma pede socorro,

enquanto seu corpo atua..

– Naiara Caroline 

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Por onde andam as pessoas interessantes?

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Depois que terminei meu namoro, senti que as coisas deram a devida reviravolta que eu tanto proclamava. De 4 a 6 semanas foi o suficiente pra poeira baixar e chegar ao limbo. O limbo é aquele lugar calmo, não muito raro, que todo mundo tem dentro de si. Um sótão que não é escuro, não abriga histórias de terror, não tem nada a ver com os filmes. Passei um bom tempo lá e confesso que tava até feliz por não ter que me distrair com ninguém a não ser eu. Depois de todo fim a gente precisa de um tempo pra cuidar da gente, botar a cabeça no lugar, sair por aí pegando uma infinidade de gente – papo chato de autoafirmação, aposto que você me entende. E depois de tudo isso, a gente para lá no limbo pra tomar uma cerveja.

De uns meses pra cá eu senti nada. Sentia nada, nadinha. Nem por uma, nem por dez das que jantaram comigo – e não é exagero, foram dez mesmo. Mexicano, japonês, italiano, comida no parque, jantar na casa dela, McDonald’s no shopping, rodízio de pizza, crepe na Voluntários, cachorro-quente num aniversário, sobremesa aqui em casa. A cada pessoa nascia aquele interesse curioso que era rapidamente sucedido pela preguiça de se dispor, de ter que contar toda a minha história, de ter que voltar pro grande jogo das conquistas.

Não me entenda mal. Eu sempre gostei de conhecer gente. Sempre gostei de ter um coração meio vagabundo que se encantava fácil, que era só achar quem tratasse bem ou batesse um pouco que ficava grudado no celular esperando resposta. E agora nada. Nadica. A maior demonstração disso foi quando superei o medo irrefreável de tirar o last seen do Whatsapp. Não tenho esperado mais resposta de ninguém e tenho tido pavor de responder alguém que não sejam os meus amigos. Ontem, por exemplo, eu peguei um ônibus lotado e um senhorzinho puxou assunto. Contou da vida, perguntou da minha. Monossilábica, meu senhor, é assim que ela anda. Nem escondi a intolerância e tratei logo de botar dois fones no ouvido pra me esconder do desconhecido. Reparei que a gente sempre faz isso na vida. A gente sempre abafa o que tenta incomodar a apatia com algum som familiar, com alguma memória preenchida ou com a desculpa de que a gente tá sempre ocupado e não pode prestar atenção. Eu, assim como um monte de gente, não quero sair da inércia, não quero sair daquele limbo sentimental a menos que alguém me puxe.

E isso me leva à outra questão: por onde andam essas pessoas que costumavam puxar a gente? Já falei sobretiming e sobre um monte de ingredientes pra equação, mas nem exijo amor, não. Uma história à toa, por menor que seja, só pra não lidar com o egoísmo da solidão. E nada de aparecer alguém que dê match na vida real como a gente dá no Tinder, ninguém que faça a gente ter vontade de continuar um papo tranquilo sem cobrança, mas com vontade de continuar. Quando falo em gente interessante, me refiro única e exclusivamente a quem se conecte com a gente de verdade, para além do mundo virtual e dos telefones da vida. Outro dia perguntei pra um amigo se ele sentia que as pessoas interessantes tinham sumido e ele disse que sim. Mais uma corja de amigos recém-separados e na mesma faixa de idade responderam o mesmo. E isso me faz pensar se a gente é que ficou desinteressante ou se o limbo emocional – nossa casa constante com o passar dos anos e dos relacionamentos – acabou tornando a gente mais exigente e maduro. Ou se realmente anda difícil encontrar conexão emocional numa época em que os aplicativos de pegação, a variedade de opções e a falta de tempo costumam transformar em instantâneos os relacionamentos que já estavam se tornando efêmeros.

Daqui do limbo as coisas vão de mal a monótonas. Cada novo encontro mostra que a barra de compatibilidade do last.fm tá quebrada. E eu já não sei mais se é a gente que deixou a coisa da conexão emocional se apagar por conta do momento, da apatia, da vontade interna de manter as coisas caladas ou se o mundo não tem proporcionado bons encontros com gente interessante – que deve andar escondida. Ou nós mesmos nos tornamos desinteressantes pela apatia. A única coisa que sei mesmo é que o Arnaldo Antunes nunca fez tanto sentido como hoje. Enquanto eu escrevia esse texto, um trecho dele martelava na minha cabeça, no meu limbo, na minha falta de interesse: “Socorro, alguém me dê um coração, que esse já não bate, nem apanha”.

Daniel Bovolento

Via http://entretodasascoisas.com.br

Mamãe há pouco bateu na porta, depois abriu e perguntou se eu estava bem. Achei engraçado. “Eu nunca estou bem” tive vontade de responder. Ou então: “O que é estar bem?” Preferi dizer que sim: “Sim, mamãe, estou bem. 

 

Caio Fernando Abreu in Limite Branco

Há quanto tempo você não olha para si mesmo?

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Como de costume em dias frios, tirei a roupa rapidinho, sem fazer cerimônia. Liguei o chuveiro pra deixar o bafo quente subir – e para desespero dos ambientalistas. Entrei no banho. A água escaldante caía, relaxando meus ombros tensos e cansados. Eu sentia, mas nem tanto assim. O sabonete era novinho e tinha aquele perfume da madeira do sândalo. Eu sentia, mas nem tanto assim. O xampu prometia, entre outras coisas, o frescor da menta no couro cabeludo. Eu sentia, mas nem tanto assim. A bucha vegetal nova fazia aquela cosquinha gostosa na sola do meu pé. Eu sentia, mas nem tanto assim.

Todos os dias, nós saímos do banho exatamente da maneira como entramos: sem perdas nem ganhos. Revigorados, mas nem tanto assim. Limpos, mas nem tanto assim. Relaxados, mas nem tanto assim. Sobra stress, sujeira, a preocupação do dia a dia e uma pergunta que não quer calar: há quanto tempo não olhamos para nós mesmos?

Provavelmente há dias. Há meses. Há anos. Há vidas. Porque o trabalho sempre foi o mais importante. Mas antes disso, a escola era o mais importante. E antes disso, a natação era o mais importante. E antes ainda, agradar aos pais para ganhar sobremesa era o mais importante. Vez ou outra, a gente até se olhava no espelho. Espremia uma espinha aqui, penteava um cabelo ali. Passava uma maquiagem para ir a uma festa, provava uma roupa nova. Encolhia a barriguinha para caber no manequim 36, experimentava novos óculos de sol. E isso, meus caros, é qualquer coisa, menos olhar para si mesmo.

Já perguntava o advogado do diabo: quem você quis agradar da última vez em que se vestiu? Provavelmente a algum editorial de moda, que diz que a calça florida é o novo hit da estação. Ou à Glorinha Khalil, que diz que a etiqueta do jantar manda a anfitriã receber seus convidados de salto. Ou ao seu namorado, que te acha gostosíssima com aquela lingerie que mais pinica do que encanta. Ou à sua mãe, que pediu pra você não usar vestidos tão curtos nos almoços de família. Ou à sua ~concorrente~ na balada, que precisa ficar impressionada com a quantidade de lurex que faz a sua blusinha brilhar mais do que a dela. E aí, por fim, você nem gosta tanto assim de calça florida, nem de salto alto, nem de lingerie de renda, nem de vestidos moderados, nem de blusas brilhantes. Mas fazer o que, né?

E quantas das suas escolhas recentes foram única e exclusivamente moldadas por você? Ouso dizer que pouquíssimas – ou nenhuma. Aquela proposta de emprego você só aceitou porque sua mãe se orgulharia em vê-la trabalhando das oito às cinco e de roupa social dentro de uma multinacional. Aquela faculdade você só fez porque seu pai queria muito que você desse continuidade aos negócios da família. Aquela dieta você só começou porque diariamente a mídia bombardeia os seus olhos com imagens de mulheres magérrimas em outdoors e capas de revista. Aquele namoro você só começou porque não aguentava mais ser a solteira convicta da galera. E aí, por fim, você nem queria tanto assim trabalhar numa multinacional, nem estudar Administração de Empresas, nem parar de comer aquele prato substancioso de arroz e feijão, nem namorar aquele cara que mais parece um apêndice do que um namorado.

E aí, a pergunta que não quer calar vem à tona mais uma vez: há quanto tempo você não olha para você mesma? Provavelmente, nunca olhou: sempre se enxergou a partir do que o outro acha que você é. E não que seja algo de anormal. Nem que eu, esta pobre e fodida colunista que vos fala, não faça a mesma coisa – do que prega Freud, meu bem, ninguém pode fugir. Mas fazer escolhas – ou pelo menos tentar fazê-las – por si mesmo é necessário. É questão de se permitir ser mais feliz – ou menos infeliz – sem ligar para o que a vizinhança vai achar. De decidir o que é lhe é bom e o que não é sem interferência da TV, do site de fofocas ou da mãe palpiteira. De ser um pouquinho egoísta. Porque quando a infelicidade bater à porta, você vai culpar o mundo, sua mãe chata, seu namorado possessivo, sua irmã encrenqueira, seu trabalho maçante, sua faculdade puxada, sua vizinha fofoqueira, seus amigos intrometidos, o ônibus lotado, a São Paulo chuvosa, a Marie Claire do mês de abril – todos aqueles que fizeram escolhas por você. E que o fizeram porquevocê permitiu.

Por isso, para terminar, como um Paulo Coelho de saias, me aproprio da velha, óbvia e deselegante autoajuda: as melhores escolhas são aquelas que fazemos dentro de um quarto escuro, sem uma única distração que não seja a nossa consciência. As decisões mais certeiras são aquelas que tomamos quando enfiamos o dedo na ferida – e cutucamos até encontrar, no próprio machucado, o cicatrizante.

– Bruna Grotti

Via: http://www.entendaoshomens.com.br/

tumblr_mk6av20ABr1qdpv23o1_500“Escrever era estranho. Eu precisava escrever, era como uma doença, uma droga, uma forte compulsão, mas não me agradava pensar em mim mesmo como um escritor. Talvez tivesse conhecido escritores demais. Eles levavam mais tempo falando mal uns dos outros do que fazendo seu trabalho. Eram nervosos, fofoqueiro, velhas solteironas; viviam se lamentando, dando facadas, inchados de vaidade. Eram esses os nossos criadores? Sempre fora assim? Provavelmente sim. Talvez escrever fosse uma forma de lamento. Alguns simplesmente se lamentavam melhor que outros.”
– Charles Bukowski

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“Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, estando a dormir ou acordado.”

Shakespeare